Saúde mental no trabalho vai além do autocuidado, defendem especialistas durante Fórum Saúde RH

"O trabalho nunca é neutro em relação à saúde. Ele vai favorecer a doença ou favorecer a saúde." A reflexão do médico, advogado e TEDx speaker Marcos Mendanha abriu a 6ª edição do Fórum Saúde RH, promovido pela ABRH-CE na última quarta-feira (6), no Teatro RioMar Fortaleza, reunindo cerca de 800 participantes para discutir saúde mental, liderança e qualidade de vida nas organizações.
Ao longo da programação, especialistas defenderam que o debate sobre saúde mental nas empresas precisa ir além das ações individuais de autocuidado e considerar fatores como ambiente organizacional, cultura corporativa, relações de trabalho e comportamento das lideranças.
Durante sua palestra, Mendanha chamou atenção para o impacto das relações humanas no ambiente corporativo e destacou que práticas como comunicação violenta, assédio e ausência de reconhecimento contribuem diretamente para o adoecimento mental.
"O assédio adoece. Ambientes hostis, com gritaria e falta de respeito, afastam as pessoas umas das outras e aumentam os riscos de sofrimento psíquico", afirmou.
O especialista também destacou a importância das chamadas recompensas intrínsecas, como reconhecimento, feedback positivo, propósito e sentimento de pertencimento, na construção de ambientes mais saudáveis e produtivos. "O bom feedback é uma recompensa que o dinheiro não paga", disse.
A líder de gestão de saúde do Wellz by Wellhub, Jessica Gonzalez, apresentou dados sobre o impacto do estresse no ambiente corporativo. Segundo ela, 72% dos brasileiros relatam estresse no trabalho e 67% afirmam que isso prejudica diariamente sua produtividade.
Jessica destacou ainda que o ambiente organizacional pode funcionar como fator protetivo para a saúde mental, desde que exista uma atuação estratégica das lideranças e do RH. "A saúde mental da equipe depende da saúde mental do líder. Liderança arrasta comportamento", afirmou.
A especialista também ressaltou a importância da prevenção e do cuidado contínuo com o bem-estar. "A gente fala muito sobre tratar o adoecimento, mas o foco precisa estar na prevenção. O estresse leve e os sinais iniciais já são oportunidades para agir antes que o problema se agrave", explicou.
NR-1 e riscos psicossociais entram no centro do debate corporativo
A atualização da NR-1, norma regulamentadora que entra em vigor a partir de 26 de maio, e que passa a reforçar a gestão de riscos psicossociais nas empresas, também esteve entre os temas centrais do evento.
A terapeuta e especialista em saúde mental e comunicação não violenta Diana Soares, que também se apresenta como ex-líder tóxica, defendeu que as organizações precisam deixar de tratar comportamentos tóxicos apenas como questões individuais e passar a encará-los como riscos organizacionais.
"Se o sistema premia um comportamento tóxico ou não pune esse comportamento, o líder não entende por que precisa mudar. O problema deixa de ser individual e passa a ser estrutural", afirmou.
Segundo Diana, as empresas precisam criar mecanismos concretos de responsabilização, acompanhamento e mudança cultural, incluindo avaliações de clima organizacional, indicadores ligados à segurança psicológica e critérios de comportamento em promoções e bonificações.
Ela também destacou que a NR-1 exige que as organizações documentem e demonstrem ações efetivas relacionadas aos riscos psicossociais. "Não basta só implementar. Os funcionários precisam saber o que está sendo feito. Segurança psicológica, assédio e saúde mental precisam deixar de ser um discurso e virar prática organizacional", pontuou.
"Saúde deixou de ser benefício e virou pauta estratégica para o negócio", defende Kássia Sales
Outros temas completaram a programação do fórum, como a relação entre saúde corporativa e ESG; e os desafios e impactos da saúde corporativa na competitividade das empresas, com participação da auditora fiscal do trabalho Eranis Brito, da psicóloga, advogada e CEO da MentSaúde, Mirna Tinoco, da especialista em ESG corporativo Alcileia Farias; Karol Magalhães, coordenadora de saúde ocupacional da Solar Coca-Cola, Pedro Meneleu, diretor de estratégia da Rede ICC Saúde, e Maria Reinald, diretora de pesquisa e educação da ABRH-CE.
A programação foi encerrada com uma palestra de Ítalo Martins, CEO e fundador da Fiibo, voltada à construção de culturas organizacionais mais saudáveis.
O Fórum Saúde integra o calendário institucional da ABRH-CE e se consolida como um dos principais encontros sobre gestão de pessoas e saúde corporativa no Ceará.
Para a presidente da entidade, Kássia Sales, o crescimento do evento reflete a urgência do tema no ambiente empresarial. "As organizações têm buscado compreender cada vez mais como criar ambientes equilibrados, sustentáveis e produtivos. O Fórum Saúde RH surge justamente para ampliar esse debate e conectar empresas, especialistas e lideranças em torno desse desafio. O fórum é importante porque discutir um tema tão relevante como saúde deixou de ser benefício e agora virou pauta estratégica para as empresas e para o negócio", afirmou.
Sobre a ABRH-CE
A ABRH-CE é uma entidade sem fins lucrativos dedicada ao desenvolvimento e à valorização de pessoas e organizações. Sob a presidência de Kássia Sales (triênio 2025–2027), a associação promove eventos de relevância para o mercado, como o CearáRH e o Prêmio Ser Humano, e atua por meio das regionais Cariri, Norte e Metropolitana de Fortaleza. Simbora lá?

