Registro civil e cidadania: profissionais relatam a luta pela presença da Defensoria Pública no interior do Ceará

20/04/2026

O registro civil de nascimento é mais do que um simples papel; é a "certidão de existência" de um cidadão perante o Estado. Sem ele, uma pessoa permanece invisível para as políticas públicas, sendo impedida de acessar programas sociais, matricular-se em escolas ou obter qualquer outro documento básico. No Ceará, essa realidade de invisibilidade atinge severamente moradores da zona rural e do interior, onde a carência de assistência jurídica dificulta a regularização documental e o acesso a direitos fundamentais.

A Defensoria Pública desempenha um papel central na superação desse obstáculo. A instituição atua diretamente na assistência para a emissão de primeira e segunda via de certidões, retificação de dados, reconhecimento de paternidade e, crucialmente, no registro civil tardio, que ocorre quando o documento é emitido anos após o nascimento. Essa atuação é fundamental para garantir que o cidadão deixe de ser apenas um número inexistente e passe a ter sua dignidade reconhecida legalmente.

No entanto, a falta de profissionais em diversas regiões do estado agrava o cenário de exclusão. O Movimento Mais Defensoria Ceará, formado por 73 aprovados no último concurso que ainda aguardam convocação, alerta para a urgência de fortalecer a estrutura de atendimento. Atualmente, a carência é dividida em dois níveis críticos: o "Vazio Absoluto", que engloba 64 cidades onde não há nenhum defensor público fixo, afetando 1.240.294 habitantes, e o "Atendimento Precário", que atinge 31 municípios. Nestas últimas, defensores de outras comarcas precisam acumular funções para atender cidades sem titular, sobrecarregando o sistema que deveria servir a mais de 741 mil pessoas.

O mapa da ausência revela que o serviço jurídico gratuito ainda não alcança todo o território de forma plena. Entre os municípios sem qualquer assistência direta estão Aiuaba Alto Santo, Campos Sales, Milagres, Pedra Branca, Senador Pompeu e Ubajara. Já cidades como Amontada, Brejo Santo, Granja, Itarema, Jaguaruana e Várzea Alegre sofrem com o atendimento cumulativo.

"Além do impacto individual, a falta de registro civil trava o desenvolvimento econômico e social das regiões mais isoladas do estado. Sem o trabalho da Defensoria Pública para mediar essas questões jurídicas, o ciclo de exclusão se perpetua, impedindo que o cidadão exerça atos simples da vida civil, como abrir uma conta bancária, casar-se formalmente ou herdar propriedades. A regularização documental é a porta de entrada para a dignidade, e sua efetivação nas comarcas do interior não pode ser tratada como um luxo, mas como uma urgência humanitária que depende diretamente da expansão do quadro de defensores para cobrir os atuais vazios assistenciais", reforça o movimento Mais Defensoria Ceará. Simbora ?

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