Agosto Lilás: a violência contra a mulher pode começar muito antes da agressão física

Quando se fala em violência contra a mulher, a agressão física ainda costuma ocupar o centro da discussão. No entanto, muitas relações violentas são marcadas, antes ou mesmo independentemente da violência física, por humilhações, ameaças, constrangimentos, isolamento, vigilância, desqualificação e tentativas de controlar as escolhas da mulher.
Durante o Agosto Lilás, período de mobilização nacional pelo enfrentamento à violência doméstica e familiar contra as mulheres, a psicóloga humanista e Gestalt-terapeuta Lisiane Forte chama atenção para comportamentos que, por terem sido naturalizados nas relações afetivas, nem sempre são reconhecidos prontamente como violência. A campanha também amplia a divulgação da Lei Maria da Penha e da rede de proteção às mulheres.
"Poucas mulheres iniciam uma relação imaginando que precisarão proteger-se da pessoa com quem escolheram viver. Em muitos casos, os limites são ultrapassados gradualmente. A mulher começa a medir as palavras, modificar comportamentos e desconfiar daquilo que percebe, até organizar parte da vida em torno das reações do outro", afirma Lisiane.
Frases como "você está exagerando", "ninguém vai acreditar em você" e "você não consegue viver sem mim" podem integrar um contexto de desqualificação e intimidação. Da mesma maneira, fiscalizar roupas, amizades, redes sociais, deslocamentos, trabalho, dinheiro ou decisões pessoais não deve ser confundido automaticamente com cuidado ou proteção.
A Lei Maria da Penha define como violência psicológica condutas que provoquem dano emocional, diminuição da autoestima ou prejuízo ao pleno desenvolvimento da mulher, incluindo ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância, perseguição e controle de suas ações e decisões.
Na experiência clínica de Lisiane, algumas mulheres chegam ao atendimento falando de medo, culpa, insegurança, estado permanente de alerta e dificuldade para tomar decisões, sem ainda relacionar essas experiências à maneira como estão sendo tratadas dentro de um vínculo.
"Não cabe ao psicólogo concluir antecipadamente o que uma mulher vive, mas ajudá-la a olhar para a própria experiência. Uma pergunta importante é perceber quanto espaço ainda existe naquela relação para discordar, escolher, manter vínculos, estabelecer limites e continuar reconhecendo a própria voz", explica.
Para a psicóloga, a violência não se resume a episódios isolados. É necessário observar o campo relacional: o que acontece quando a mulher diz não, expressa uma necessidade, encontra amigos, trabalha, administra o próprio dinheiro ou toma uma decisão que contraria o companheiro.
"O controle pode aparecer acompanhado de declarações de amor, pedidos de desculpa e promessas de mudança. Isso torna a experiência mais ambígua e ajuda a compreender por que romper uma relação violenta não é uma decisão simples. Não se trata de perguntar por que uma mulher permaneceu, mas de compreender as condições afetivas, familiares, sociais e econômicas que dificultaram sua saída."
Literatura e violência invisível
A discussão também atravessa o romance de estreia de Lisiane Forte, Arde de Dentro – afetos, violências e rupturas. A obra acompanha Luísa, uma mulher que tenta reconstruir a própria existência depois de viver afetos ambíguos, silenciamentos e formas de violência que modificaram sua maneira de amar, desejar, trabalhar e reconhecer a si mesma.
Sem caráter autobiográfico ou proposta de autoajuda, o romance se aproxima daquilo que frequentemente antecede as rupturas visíveis: a culpa, o medo, a erosão gradual da autonomia e o momento em que uma mulher percebe quanto de si precisou abandonar para sustentar uma relação.
"A literatura não substitui o cuidado psicológico, jurídico ou social, mas pode oferecer linguagem para experiências que permaneceram durante muito tempo sem nome. Às vezes, uma leitora reconhece numa personagem algo que ainda não conseguia formular sobre a própria vida", afirma a autora.
A capa da obra é assinada pela escritora e artista visual Ana Miranda, autora de romances como Boca do Inferno, Desmundo, Dias & Dias, Clarice e A última quimera. Sua criação amplia o diálogo do livro com a memória, a identidade e a complexidade da experiência feminina.
Ao aproximar literatura e psicologia, Arde de Dentro contribui para uma das reflexões propostas pelo Agosto Lilás: a necessidade de reconhecer como violência também aquilo que não produz uma marca imediatamente visível, mas altera a liberdade, a confiança e a maneira como uma mulher ocupa o próprio mundo.
"Uma relação não precisa ser perfeita, mas precisa admitir a existência de duas pessoas. Quando uma mulher já não pode discordar, escolher, circular ou falar sem medo das consequências, há algo nessa relação que precisa ser visto com seriedade."
Sugestões de abordagem para entrevistas
Lisiane Forte pode falar sobre violência psicológica, naturalização do controle nas relações, dificuldades envolvidas no rompimento, saúde mental de mulheres em situação de violência, atuação clínica sem culpabilização e o diálogo entre literatura e experiência feminina.
Sobre Lisiane Forte
Lisiane Forte é psicóloga humanista, Gestalt-terapeuta e escritora, com mais de 25 anos de atuação. É autora de Liames, Zonas Abissais, Mariposa – Alma Lunar, Aqui e Agora – Viver a Vida de Perto, Escrita Terapêutica – O que as palavras dizem quando você não quer ouvir e do romance Arde de Dentro – afetos, violências e rupturas.
À frente do Espaço Lisiane Forte – Psicologia & Arte, em Fortaleza, atua na clínica, coordena grupos terapêuticos e desenvolve projetos que aproximam psicologia, literatura, arte e cultura. Simbora lá?
Serviço:
Espaço Lisiane Forte – Psicologia & Arte
Endereço: Rua Eduardo Garcia, nº 23, sala 7 – Shopping Bosque Center, Aldeota, Fortaleza/CE
Telefone: (85) 98712-8013


